Sala Especial "Arte Mineira" no X Salão de Arte e Antigüidades.

A presença da arte contemporânea no Salão de Arte e Antiguidades de São Paulo cresce a cada nova edição dando mostra da maturidade a que chegou o colecionismo entre nós. Isto se explica pela progressiva consagração da arte moderna nos últimos 50 anos e a conseqüente ampliação do mercado de arte com o investimento em novos valores. A aceitação do moderno não só abriu o campo da arte para a experimentação como abriu os olhos dos colecionadores para a criação livre de preconceitos capaz de mesclar o popular e o erudito, o artesanal e o tecnológico para além de qualquer convencionalismo.


Os artistas que o Escritório de Arte Murilo Castro apresenta nessa décima edição do Salão são capazes dessas surpreendentes associações de mundos, de técnicas, de histórias individuais e coletivas. Essa arte que nos chega das Minas Gerais é bem o retrato do Brasil. Nela o arcaísmo e a modernidade convivem em obras que nos tocam de imediato porque repercutem um fundo cultural comum a nós brasileiros sem contudo deixar de ter uma comunicação universal. Falo de Fernando Lucchesi, Marcos Coelho Benjamim e José Bento. Com satisfação vejo esses artistas retornarem a São Paulo que os tem acolhido com entusiasmo como pudemos ver no ano passado quando participaram da sala Garimpo Brasil.


São expressões singulares, numa época em que tudo parece assimilável, com produções inconfundíveis pela escolha dos materiais, pela fatura e acima de tudo pela sujeição a imaginários individualizados decorrentes de experiências vividas no ambiente familiar e regional. A sustentação dessas poéticas vem do fluxo interior que promove um fazer reiterado, quase obsessivo, ao qual os artistas se entregam mas não sem consciência crítica o que os afasta de qualquer ingenuidade. Outro traço em comum é o uso freqüente de procedimentos artesanais, opção que remete ao universo pré-industrial, nesses casos, à tradição colonial.


Vale lembrar que depois da entusiasta acolhida da pintura naif de Henri Rousseau pelos modernos - Picasso inclusive - o que até então tinha sido rejeitado pela arte erudita como "primitivo" passou a ser inspiração para a arte moderna. Ainda nas primeiras décadas do século XX, a atração que a escultura da África ou da Polinésia exerceu sobre os vanguardistas abalou a pretendida superioridade da cultura européia sobre outras culturas. Esse reconhecimento do "outro" rompeu as barreiras entre o culto, o étnico e o popular desses contatos resultando a revitalização da arte ocidental. Na esteira dessa abertura se fez arte de vanguarda, pop art e se faz arte, hoje.


Fernando Lucchesi nos encanta com seus oratórios, caixas, armários e objetos em ferro que recordam os equipamentos de culto e de uso doméstico da região das Minas. Trabalhando com materiais precários como folha de lata, arame e madeira que recobre com pintura ele cria um mundo de faz de conta. Nisso se aproxima da improvisação das festas populares, das decorações de altares ou andores, dos arranjos caseiros em que a invenção popular substitui os materiais caros e duráveis por outros de menor custo e mais frágeis sem contudo perder de vista o efeito suntuoso. Na obra de Lucchesi, a pintura é essencial na obtenção dessa riqueza visual. As superfícies, sejam fundos, laterais, portas e frisos pintados em cor única recebem por meio de rápidos toques de pincel uma profusão de motivos - o triângulo, a espiral, pequenas árvores, luas ou candelabros - ou uma grafia repetitiva de pontos, linhas quebradas e traços curtos em cores contrastantes. Resulta intensa vibração cromática associada muitas vezes ao brilho do metal recortado e aplicado sobre o plano. Sua pintura autônoma, sobre tela, decorre dessa vontade de tudo recobrir, de a tudo emprestar a marca do homem pela inscrição de um código.


Marcos Coelho Benjamim
lança mão do zinco, do cobre, do ferro, da madeira, da pedra para construir objetos de pequenas ou grandes dimensões que, entretanto, mantém entre si uma relação lingüística pois pertencem a um mesmo vocabulário. Em qualquer escala predomina o rigor formal e a cor decorrente da matéria trabalhada em bruto. Ainda assim, sua arte não é fria. Na contra-mão do preconizado pela ortodoxia construtivista, que privilegia o acabamento liso e uniforme, as superfícies de seus objetos são como peles ásperas, maculadas, trabalhadas a ferro e fogo. Ao longo dos anos, o cone duplo ou fuso tornou-se o signo emblemático de sua obra. Dentro de uma pequena caixa ou, com cerca de 3 metros, pousado no chão, este sólido oblongo quando agigantado altera fortemente a percepção do espaço. Sua presença é como um espinho cravado no vazio da sala, talvez por isso tão inesquecível. O fato é que partindo de objetos banais tal como o funil, o ralador, a gaiola, Benjamim restaura a dignidade das coisas simples que saltam do cotidiano para o estranhamento poético.


José Bento é o mais moço dos três. A matéria que elege é a madeira. Seu trabalho vai da escolha de troncos em bruto que desbasta a formão até a escultura em blocos menores de requintado acabamento. Da monumentalidade às peças portáteis, em tudo se percebe a reverência pela massa, pela densidade, pelas qualidades de textura e cor da baraúna, do jequitibá, da peroba-rosa e de outras espécies vegetais. As toras rudemente aplainadas se convertem em blocos bem plantados no chão: são torres e colunas cuja solidez remete à solenidade dos marcos. Algumas apresentam os topos cavados como as Torres de Santo Onofre e a série dos cubos maciços. O Alfabeto é formado por peças de mesa que podem ser combinadas à semelhança das figuras num tabuleiro de xadrez. E não se pode esquecer das Rodas quando se fala da obra de José Bento: feita de fragmentos de madeira ela é como o tempo, sem fim nem começo.


Pressinto nos trabalhos de Lucchesi, Benjamim e Bento a lição de Amílcar de Castro que certa vez ouvi responder a um jovem artista, inquieto, sem saber que linguagem adotar: você pode dizer como quiser desde que diga com convicção.

Maria Alice Milliet
Inverno 2003

 

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