Vestiu um Parangolé e Saiu Por Aí...

A arte pop, em seu aspecto consagratório, conseguiu reaproximar o objeto artístico das coisas do mundo real. A utopia modernista acabou por fazer da atividade artística o campo premonitório de um projeto de mundo idealizado que contrastava com a realidade objetiva do cotidiano. A segunda grande guerra mundial marca em definitivo essa dicotomia entre o otimismo das teorias da arte e o fracasso de suas aplicações na vida prática. Os grandes artistas da segunda metade do século passado são exatamente aqueles que, sem abandonar a autonomia de suas linguagens, premissa tão cara aos modernistas de primeira hora, a ela acrescentam elementos subjetivos, alguns resquícios do passado, referências, de origem popular enfim, universos culturais até então desprezados pelos formalistas responsáveis pela nova Ordem que passaram a refugiar-se em escolas – academias modernistas – elaborando teses e conceitos nos quais a liberdade e o talento subjugavam-se ao método e a um suposto rigor científico.

O encantamento pela modernização, o fascínio pelos artefatos industriais que despertava a atenção de todos no início do século XX cede lugar, nos anos 50, a um mundo cada vez mais complexo e articulado, no qual a indústria da comunicação passa a desempenhar um papel cada vez mais relevante. É essa rede, essa visualidade urbana, essa reprodutibilidade assombrosa de imagens sem conceito e “sem alma” que domina o mass media, essa popularização do consumo visual que passa a despertar o interesse dos jovens artistas de então. Nesse mundo repleto de imagens sem mensagem e sem dialética os artistas reencontram a possibilidade de retomar suas relações com o mundo figurativo. Se, até agora, a arte se considerava uma espécie de laboratório de pesquisas onde a comunicação de massas se alimentava, a partir da pop art essa equação é invertida: a arte passa a invadir a estética da publicidade, a subverter os conceitos e mensagens simplificadoras que caracterizam a relação produto/consumo.

No Brasil, Helio Oiticica é, sem dúvida, o artista paradigmático dessa relação intrínseca entre a estratégia conceitual baseada no paradoxo e na ironia, que tem como referência Marcel Duchamp e a valorização dos aspectos populares, subjetivos oriundos de uma poética artesanal que encontra origem em Pablo Picasso. Os parangolés, cor vestida e sambada, são objetos referenciais dessa estratégias que abre portas e janelas para as futuras gerações. Essa precariedade de materiais que se aproxima da arte povera embasada por um profundo compromisso com a tradição conceitual do objeto artístico como elemento de estranhamento e surpresa no mundo encontra eco e alento em diversos artistas brasileiros como Jorge Duarte, Marcos Cardoso e Edmilson Nunes. Suas obras referem-se diretamente a uma realidade palpável, objetiva, de forte apelo popular, comprometidas com o “imaginário periférico” e suburbano ao mesmo tempo que se afirmam como elementos de forte sofisticação intelectual. A estética, aqui, é o caminho de descoberta, de re-encontro, de aproximação, ponte entre o universal e o subjetivo, o internacional e o nacional, entre a tradição de nossa história recente na qual, alem de Oiticica, firma-se a presença de Gerchmann, Barrio, Cildo Meireles, Tunga, Bispo do Rosário. Essa é a família, essa é a base sobre a qual se estrutura a linguagem dos três artistas que se apresentam nessa exposição.

A ela, acrescente-se o mundo. Esse Brasil intenso e tenso que povoa nossas retinas, nossas ações, nossos atos, fatos, falos, faltas, falhas, fotografias reais e complexas de uma realidade que aterroriza e fascina como os perigos do abismo, como os trapézios e picadeiros, como os desfiladeiros pelos quais caminhamos, eterno viajante, artista, repórter. E, portanto – e afinal – do que trata essa mostra? Trata do olhar, assustado, encantado, corpo que cai, corpo que voa e que reúne as tripas e as tralhas de seu caminho, de suas trilhas, do seu menino, do nosso ancião, arte por toda a parte, por todo o olhar, pelo céu, pelas paredes, pelo chão. Jorge, Marcos e Edmilson fazem parte de uma legião de artistas que acreditam na arte como instrumento de conhecimento e de transformação do mundo. Seus trabalhos são, antes de tudo, pequenas engrenagens que articulam os movimentos da arte. São brinquedos articulados nos quais o espectador é instado a participar, a pensar e a reconstruir os seus próprios jogos de armar, armas de amar. Dentro de um universo comum de ação política da arte cada um dos artistas desenvolve a sua produção a partir de temáticas e ações específicas, o que permite que as suas obras, reunidas num mesmo espaço físico, estabeleçam diálogos articulados a partir da identificação de semelhanças e diferenças.

Jorge Duarte é um dos mais importantes artistas da chamada “Geração 80”: ao longo desses últimos 20 anos o artista desenvolve uma sólida carreira na qual a sua figuração corrosiva, de apelo popular e relações diretas com os grafiteiros urbanos mescla-se com uma constante ironia com a história da arte, na maioria das vezes manifestada através da apropriação de imagens icônicas que são abordadas pelo artista através do fetiche e de suas características icônicas relacionadas com o universo dos signos da comunicação. A utilização das palavras na obra de Jorge Duarte supera a poética visual de origem cubista e se afirma como elemento de estruturação da obra na qual a mensagem e a imagem atuam de maneira integrada e complementar. Em meio a tanta vibração, perpassa na obra do artista uma espécie de silêncio existencialista: a ironia e o distanciamento crítico tão caro ao artista acabam por estabelecer tensões emocionais com situações relacionadas com a vida e a morte, tortura e prazer, cenários ambíguos que parecem se deixar dominar pelo próprio absurdo da existência.

Marcos Cardoso parte de comportamentos oriundos da prática artesanal para atuarem na criação de uma obra que parece querer romper os limites cada vez mais questionáveis entre as esferas da arte popular e da arte considerada erudita. Ao trabalhar nessa tênue fronteira o artista questiona os seus valores, as relações de poder determinadas pela sociedade dividida em classes e a função do “gênio” e do espírito inseridos na idéia que justifica a produção da arte. Embalagens, garrafas, restos e resíduos urbanos, fragmentos de festa, pequenos discursos amorosos, esses são os materiais construtivos com os quais o artista elabora a sua linguagem. Colar, rasgar, costurar, dobrar, em Marcos Cardoso a função artesanal é incisiva e representa parte fundamental de seu processo construtivo; o pensar e o fazer se articulam numa mesma escala de valores, numa sofistica construção poética que persegue a harmonia e a integração de um Todo construído por partes desiguais, espécie de mosaico contemporâneo de forte conotação romântica.

Edmilson Nunes mergulha corajoso no universo kitsch, na força expressiva das palavras lidas, das emoções vulgares, dos sentimentos previsíveis. Tudo aqui respira sexo, amor e traição, religião, culpa e tesão, boudoirs com aroma de alfazema, puteiros rastaqueras, Vila Mimosa, barracão de escolas de samba cheirando a cerveja, suor, cola e esperma, Almodóvar comendo moela de frango na Praça Raul Soares às 4 da madrugada, atmosfera suburbana, esse é o cenário que o artista povoa de sonhos e de fantasias, esse é o Carnaval, esse é o corpo e a cinza, a penitência e a paixão, a fé e a profanação, o sagrado e o sacrilégio. O elemento decorativo é parte determinante da obra, alegorias de festas e de fantasias, figurinos, adereços, brilhos e purpurinas que o artista manipula, subverte a efeméride, adquire contornos de eternidade, empresta caráter e veracidade, amálgama de frustrações envelhecidas, de prestações vencidas, samba e rock, tangos e boleros, sons e cores de uma orquestra vibrante que Edmilson Nunes manipula com a voracidade de um maestro.

Marcus de Lontra Costa
Nova Iguaçu, outubro, 2006

 

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