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Quando visito seu ateliê fico entusiasmado e ao mesmo tempo perplexo. Você abandonou a gravura da qual foi considerado um mestre para fazer colagens. Agora está fazendo obras com elementos metálicos. Com esse material, em geral novo, você cria outra maneira de encarar o espaço, talvez mais esotérica do que simplesmente visual. Suas obras também não são exatamente esculturas, são monumentais mesmo quando são pequenas porque poderiam ser transpostas em outra escala se você preferisse o que é espetacular, como alguns de seus colegas, à revelação dos tesouros secretos de sua imaginação criadora. Não há nas suas obras nenhum elemento folclórico, lúdico ou narrativo, nada que lembre seu Brasil natal. A fonte de inspiração situa-se em outro nível e quando você a procura nos arcanos do seu inconsciente ela está sempre pronta a responder. Você descobriu cedo, devido a vicissitudes de uma vida familiar de gente abastada, com pai advogado e mãe católica praticante e como quarto filho a vontade de independência. Essa vontade de solidão afirmou-se depois de um desastre de automóvel que o afastou do ritmo normal de ensino. Esse no man’sland moral e cultural onde você se sente bem abriu portas para sua vocação de pintor. A revelação que foi para você a arte de Van Gogh num livro que sua irmã mais velha ofereceu e que você logo quis copiar e interpretar encontrou um pouco depois um lugar de ressonância no ateliê do primo Gomide, formado, segundo estudos clássicos, em Genebra. As suas primeiras exposições revelam uma figuração que você diz ser um “expressionismo um tanto surrealista”. Algumas obras, já em 1945-1946, chamam a atenção do público. Foi no ateliê Gomide que você conheceu Clélia com quem casou em 1949. No papel de chefe de família você foi obrigado a achar um ganha-pão, mas sem que abandonasse a arte. Vocês deixaram o país natal e procuraram na Europa melhores condições para a evolução da prática da pintura. Você se instala em Paris, encontra o gravador Johnny Friedlaender que se torna seu mentor. Você descobre logo uma liberdade temática e uma técnica rigorosa que lhe permitem tratar o espaço com audácia para chegar a um estilo onde uma fina sensualidade equilibra o rigor. O Prêmio de aquisição que você obtém em 1953 na Bienal de São Paulo é a recompensa para o seu primeiro período. Você pode continuar a utilizar sua técnica sem abandonar a pintura. Em 1959, obtém na Quinta Bienal de São Paulo o prêmio de melhor gravador, mas você não se impressiona com essa vitória. Você sente a necessidade de utilizar novos meios de expressão para dizer o espaço tridimensional, primeiro com colagens de papel e agora com elementos metálicos. Você hoje, com sua curiosidade sem limites, pôs tudo de pernas para o ar, mas como você também tem uma perfeita noção, não só de equilíbrio, mas do que são as relações entre formas e movimentos sugeridos, você soube dar a cada obra uma presença orgânica, ou mesmo ontológica. Você olha o material mais do que simples que usa como se quisesse dar a ele espírito e até, às vezes, alma, e por isso, para mim, suas obras são como talismãs. O entusiasmo, o fervor do artesão que explora as singularidades do banal, que percebe antes de ver, que se prepara para a transcendência à procura da respiração e da densidade do espaço na luz, que tem a sensação justa, tátil, carnal de um desvendar maravilhado é o que François Mathey quis comemorar há anos na excelente exposição “Artistas-Artesãos?” no Museu desArtsDécoratifs. Aqui o que vemos é o material que se dobra para chegar à harmonia, que procura a respiração na espessura do entrançado e sua flexibilidade e transparência para nos convidar a explorar, segundo as possibilidades de cada um, um espaço mágico. Tudo o que suas gravuras revelavam de energia, fineza, sensualidade está intacto nesses transes mediúnicos. Em geral pequenos, e como obrigados à modéstia, eles concentram todo tipo de energia, às vezes como efígies que revelam, porque em contração, a monumentalidade da concepção, que autorizaria a metamorfose deles em grande dimensão. Seu ateliê está cheio dessas presenças dissimuladamente benéficas, paredes e mesas repletas de mensagens, em pé, deitadas, em cercados, ou apresentadas ao peso do olhar em torno da grande e tremulante Babel. Umas e outras têm pontuações coloridas ou formais que destacam o caráter enigmático do testemunho delas. Eu imagino que você também se sinta surpreendido com as figuras que suas mãos revelam, como se tivessem sido apanhadas num sonho ou numa intrusão mágica em algum inframundo e que descrevem do jeito delas quem você é, seu ser verdadeiro, ao materializarem estruturas e animações que você não conhecia diretamente. O privilégio dos artistas é poder projetar-se no espelho das próprias obras, reconhecendo-se às vezes, ou perdendo-se nelas eventualmente. (Jean François Jaeger)